Que saudade!

Tema da semana: A Noite. 

A noite?

Sinto falta dela…

Percebi isso a pouco tempo, na verdade.

Fui convidada pra um aniversário na Augusta, e preferi ir sozinha e encontrar com os amigos por lá.

Fiz o mesmo caminho, que me guiou durante muitos finais de semana, a poucos anos atrás!

Sozinha, como deveria ser!

Desembarquei no metrô Consolação, e comecei a descer a saudosa Augusta, que hoje abriga outros universos e verdades.

Devia ser umas 22h, e o movimento só estava começando!

Bares cheios, cinema lotado, pessoas subindo e descendo, e parando no meio do caminho pra compra, livro, CD, camiseta, pulseiras…. e tantas outras infinidade de coisas que se vendem nessas calças estreitas.

Estava tão feliz naquele momento.

Uma incrível sensação de plenitude me preenchia!

Desci cada quarteirão com um sorrido disfarçado no rosto.

Eu estava feliz de estar ali, e principalmente estar sozinha. Era mágico!

Hoje minhas noites não são.

Não sinto vontade de sair, não que eu não queira, mas um cansaço constante me consome.

Cansaço, não preguiça!

Na Vitrola:

 

Quando a gente fica muito tempo pensando sobre um tema, a gente acaba mudando de idéia. Por exemplo, para essa publicação eu havia redigido a fala de um homem, que aparece no final da música À Lina , da Trupe Chá de Boldo.

“A noite é uma pantera preta caminhando lá em cima. Meia noite exatamente.

Ponho muitas coisas de lado enquanto ando na madrugada, pintura.

Vou largando meus medos e tudo mais.

A medida que dou um novo passo,

E a paisagem, se transforma.

Na primeira encruzilhada paro!

Retiro do bolso uma caixa de fosforos e um par de velas,

Dou um gole antes de colocar a garrafa ao lado do poste,

Ascendo uma a uma as velas.

Velas vermelhas.

Um som da garganta visceral como bolha subindo.

Esse sentimento querendo estourar as paredes do corpo,

As mãos frementes vibrando por causa de correntes energéticas eróticas,

A cabeça meneando os ombros saracoteando, tudo junto

Numa sincronia estranha, que nem gato no telhado, gemendo alto.

Num jeito bixona de falar no final das palavras.

Imagens absurdas.

É tudo permitido!

O respeito se acabou, e tudo.

O suor transmitindo odores animais,

Uma bomba erradiando sua força, fazendo a pelvis se mexer freneticamente!

Devo pedir o que nao se deve?

Tudo em desperdício!

Apareça Dionisio seu filho da puta!

Apareça Dioniso paixão!

Só então tomado de assalto por suores muito loucos,

Salivação perturbadora.

Fico rubro, com o fogo no rabo.

Apareça Dioniso seu filho da puta,

Apareça Dioniso paixão!

É o que eu peço, em todas as noites de festa!”

“O ÚLTIMO A DORMIR APAGA A LUA”

O tema dessa semana no 5ATEXTO é: “a noite”.
E essa é a minha contribuição.
E é tudo de verdade.

Ali, na Avenida Rebouças, em frente ao HC. Naquele viaduto, na passarela. Onde tem o ponto de ônibus, chegando na Avenida Paulista, sabe?! Aquele lugar, pertinho do Túnel Noite Ilustrada. Passos antes, do lado esquerdo, pra quem sobe. Do direito, pra quem desce. Bem no instante onde nossa paciência começa a ser lenta feito o trânsito avenida abaixo.
Paro.
Outro dia consegui enxergar a frase, até que enfim. Cabeça no banco, sono no rosto, rosto no vidro. E o vidro, xará, no viaduto. Ali, na Avenida Rebouças, em frente ao HC. Naquele viaduto, na passarela. Onde tem o ponto de ônibus, chegando na Paulista, sabe?!
Ela está lá. Inspiradoramente provocante. Pra gente espantar o sono e o tédio. O medo de se perguntar demais, de pensar demais: o que mesmo que a gente faz quando o sol se põe? O que mesmo que a gente faz, quando o nosso sol se põe? Espera? Adormece pro tempo passar mais rápido? Ora, e espera uma providência divina pra ele vir mais rápido que o combinado, que o esperado?
Já tinha visto uma outra, bem forte também. “Em casa de menino de rua, o último a dormir apaga a lua”. Pelo que li essa frase estava grafitada em algum lugar da Rua Augusta. A que eu vou contar não. Essa é de outro lugar. Ali, na Avenida Rebouças, em frente ao HC. Naquele viaduto, na passarela. Onde tem o ponto de ônibus, chegando na Avenida Paulista, sabe?!
É lá que quem não tem casa, por escolha própria ou de alguém que pode mais, mora. É a sala de estar, a cozinha e o banheiro dessa pessoa. Banheiro, cara! Banheiro. Parou pra pensar nisso? Aqui na rua de casa, aqui onde eu tenho casa, sala de estar, cozinha e banheiro, como todo mundo deveria ter, o Seu Vagner foi quem optou por ser o responsável oficial de apagar a lua todas as noites. Fez essa escolha consciente, me contou outro dia, em baixo do sereno. Apontou pra publicidade de cerveja num cartaz que o ajudava a se cobrir e disse:
– Isso aí, meu filho, é o que me fez vir parar aqui. Parei de brigar com a minha família há 13 anos, quando troquei minha casa por essa esquina. Aqui, ninguém me dá ordens, ninguém acha que sabe mais de mim do que eu mesmo. (Mesmo que elas estejam realmente certas, pensei).
Ele deixou a família, pois não deixava a bebida. Deixou a casa, a mulher, os filhos. Na rua, deixou as próprias ruas, saindo da zona norte, caminhando por aí até encontrar aqui, na esquina, um lugar. Quantos quilometros será que ele andou?
Aqui, me contou, deixou de beber. De beber, cara! E me disse pra dizer aos meus  amigos pra ter cuidado com isso de beber, sabe?! Ele deixou a família, pois não deixava a bebida. Aí, na rua, deixou a bebida, mas a família, ele me contou, já o havia deixado a essa altura.
Silêncio na Heitor Penteado.
O Seu Vagner está se levantando com calma, dificuldade, puxando a perna e a dor nela com muito cuidado para o mais alto que puder. O Seu Vagner já sabe há mais de uma década o que deve fazer quando o sol se põe.
Levantar-se e apagar a lua.
Obrigado por isso, Seu Vagner.

De verdade.

sobre meus óculos

Tema da semana: Desapego. 

 

“Num dia triste de chuva” …

Mas antes:

Eu tenho miopia e astigmatismo, e desde os 12 anos, uso óculos! Eles são um extensão do meu corpo, não vivo sem eles!

Por volta dos meus 18 anos, ganhei do meu pai (de presente de aniversário) um óculos muitoooooo lindo e muitoooo caro!

Eis que, nessa época da minha vida, eu fazia cursinho… e “num dia triste de chuva”, eu e meus amiguinhos saímos do cursinho e fomos rumo ao ponto de ônibus, que ficava a alguns quarteirões!

Estava chovendo torrencialmente, e eu muito esperta, coloquei o óculo na gola da minha camiseta… Afinal de contas, em dias de chuva, enxergamos melhor sem eles.

Quando cheguei no ponto de ônibus  me dei conta que o óculos não estava mais pendurado na minha camiseta!!!

Fiquei desesperada, refiz o caminha e nada!

Era certo! Meu pai me mataria… e eu me odiava por ter perdido aquele óculos lindoooooooooo que tinha ganhado de aniversário a poucos dias!

Cheguei em casa chorando tanto, que até soluçava! Minha mãe ficou até preocupada achando que tinha acontecido uma tragédia.

Mas pra mim, aquilo era uma tragédia!

 

Mas o que isso tem a ver com desapego? 

Foi nesse dia que eu percebi, que independe do preço, as coisas matérias não tem valor algum quando comparado as nossas relações!

Lembro que minha mãe dizia, “não tem problema Letícia, vamos comprar outro, o que importa é que você está viva… já pensou se acontece alguma coisa com você no meio daquela chuva?”

No dia o argumento dela não fez nenhum efeito, mas hoje faz total sentido… eu poderia ter morrido e o óculos ficado… Mas os óculos sozinhos não seriam capazes de escrever essas histórias pra vocês, eles nada valeriam.

Atualmente, depois de uma longa caminhada por diversos lugares imaginários,  me vejo uma pessoa muito mais desapegada…

Se você quiser alguma coisa emprestada é só me pedir… livro, cd, dvd, roupa… qlq coisa, não to nem ai, se devolver obrigado, se não devolver, que faça bom uso!

O que importa, no fim das contas, e que pelo menos uma vez eu tive o prazer de te encontrar para te emprestar algo! E tenho certeza que desse encontro eu não vou esquecer!

 

Na Vitrola:

 

Praticar o desapego? Ai, como é difícil!

fonte da imagem

Desapegar-me dos meus livros? Nunca! Sim, porque um dos maiores apegos que tenho é por livros, e é o que me faz ser egoísta. Sim, sou egoísta, muito egoísta, uma pessoa terrivelmente malévola. Não empresto meus livros, porque, na minha cabecinha egoísta e super protetora, acho que a pessoinha pra quem eu emprestei o livro não saberá cuidar dele, que vai lascar com o meu filhinho… ops, livrinho. Então sempre desconverso quando me pedem livros emprestados. Não, eu não consigo confiar meus livros a (quase) ninguém. Apenas aos que sei que também amam livros loucamente como eu amo. Mas são pouquíssimos em que confio assim, pra emprestar os meus livros, e ainda assim, empresto com medo. É uma confiança desconfiada. Porque sempre pode dar merda. Sei lá, a pessoa pode estar lá com o meu livro, lendo tranquilamente, e vem alguém do nada com um copo de sabe-se-lá-o-quê, tropeça e o conteúdo do copo cai justamente no meu lindo livro. Sim, pode me chamar de louca, de paranoica, mas eu sempre penso em todas as possibilidades, principalmente nas piores possíveis, porque sou uma pessoa muito positiva (risos debochados). Porém, eu sei que esse meu egoísmo é horrível, porque eu poderia estar compartilhando as belas estórias que conheci através de livros com outras pessoas e elas se alegrariam tanto quanto eu em conhecê-las. Seja qual for o nosso tipo de apego, é preciso nos desapegar e passar a compartilhar o que a gente julgava somente nosso. Mas cuidado com isso! Não Saia por aí compartilhando sua namorada/esposa por aí. Tudo tem limite, né? (risos) Cada um com seu amor, porque assim a coisa fica mais linda, certo? Certo. Sério, eu preciso aprender a compartilhar meus livros, a perder o medo de que eles voltem danificados dos meus empréstimos. A vida é muito curta pra gente não compartilhar coisas boas, especialmente com pessoas que a gente gosta, com pessoas que estão a nossa volta. É essencial que tentemos conjugar o verbo viver na primeira pessoa do plural. É difícil, ainda mais com tantas mentalidades e anseios diferentes, mas não é impossível pensar no bem geral. É possível, sim, ser menos individualista, ser menos apegado às coisas materiais. Se bem que livros não são coisas materiais, não pra mim, uma bibliomaníaca, uma futura bibliotecária. Livros são verdadeiros tesouros, joias raras, que eu tanto amo ter e cuidar. Eita, já estou de novo pensando nos meus livros como apenas meus, voltando a ter pensamentos individualistas. Faço uma promessa aqui: quando me pedirem um livro emprestado, vou cogitar a possibilidade de emprestá-lo. Parte triste disso de promessas: eu nunca fui muito boa com elas.

É isso: compartilhemos coisas e sentimentos bons. Compartilhemos amor. Compartilhemos o lado bom da vida.

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Tema da semana: desapego.

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Um abraço da @ericona.

Hasta la vista!