sobre uma outra vida por aí.

“Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo – expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar – caem diante da morte, deixando apenas o que é importante. Não há razão para não seguir o seu coração. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração”
Steve Jobs

Me lembro da cena. De onde eu estava, como eu estava. Só não lembro o que fazia. No quarto, à esquerda, tão pequeno quanto os recursos que o fizeram existir, o Motorádio 8 faixas, especialmente comprado para ouvir os jogos do Campeonato Carioca. Motorádio, você sabe, sintoniza emissoras do Rio de Janeiro como se fosse uma internet banda larga. Mas, isso, em 2003. Num tempo em que ter telefone fixo em casa era luxo, coisa de classe média. Imagine internet?

Segue.
A música terminou. Falava alguma coisa sobre um bom lugar pra se viver. Deu uns 2 segundos de silêncio, e o Ronaldo César entrou ao vivo anunciando a música, quem pediu e falando de um programa especial homenagem à quem a cantava. Falou ali algumas palavras que não lembro, e chamou um entrevistado “muito importante”, que entrou por telefone. Ligação ruim. Primeira tentativa caiu. Na segunda, uma voz inconfundível dizia alguma coisa sobre sua importância pro cenário musical, sua importância para a periferia, para a molecada que queria se salvar. Aquela voz, eu conhecia aquela voz: mano brown.
Eu não conhecia nada sobre a vida do Mauro Mateus dos Santos, que havia sido morto no dia anterior. Muito menos conhecia profundamente as letras do Sabotage, que o Brown tanto falava na 105 FM naquela hora. Os dois, que eram a mesma pessoa, mas nem parecia, era o assunto em tudo quanto é jornal. Talvez, muito mais pelas circunstâncias de sua morte, do que propriamente por ser uma artistas conhecido em todo o país. Do Sabotage, eu, no máximo, sabia a levada de suas músicas, de tanto que faziam sucesso naquele momento entre aqueles que curtiam rap. Mas, estranho, como essa cena ficou marcada na minha cabeça. As palavras, o dia, a cena, a ligação do Brown pelo celular, que insistia em cair quando passava em um túbel. Aquela conversa toda ficou desenhada na minha cabeça por anos e anos.

Eles se despedem. Ronaldo César oferece uma música para os familiares. A música mais bonita e verdadeira que já ouvi até hoje no RAP até hoje.

E ela começa a tocar.

A morte do Sabotage foi a primeira vez que eu, conscientemente, entendi que uma pessoa estava indo embora pra sempre, fisicamente falando. Indo embora, não deixando de existir, como pressupõe morrer. Estranho, né, trazer isso pra consciência justamente coma partida de alguém que eu nem ao menos conhecia como artista até aquela hora?!? Mas, aconteceu. Não sei explicar muito. Mas foi marcante. Tanto que dez anos depois, eu estou aqui escrevendo justamente sobre isso.
Mas, se o tema é a vida, para quê ficar falando da morte? Porque eu acho que, no fundo no fundo, a vida e a morte são lados de uma mesma moeda. Tudo a mesma coisa; é como se fosse o negativo e o positivo de uma foto, sabe? De um lado, mais colorido, mais vibração, pessoas sorrindo, jogos do Flamengo. O outro lado é o PB, é o contrário, e quase não se vê com nitídez os detalhes de cada canto da imagem. Mas quem disse que não jogam lá, desse outro lado, os craques do Flamengo do passado? Ninguém nunca voltou pra contar. Impossível saber.

Tem gente que está viva, mas é como se não fosse; não é notada, não é vista, não influencia, nem é influenciado. Acorda, se banha, pega uma roupa qualquer, vai pro ponto de ônibus, pega o ônibus, chega no trabalho, faz algo da qual não sente orgulho, nem que traz felicidade. Termina o trabalho, pega o ônibus de volta, cheio, chega em casa, come um jantar, conversa um pouco, toma banho e dorme, pra começar tudo de novo. Aos fins de semana não vive; descansa para trabalhar de novo, na segunda.
Isso é viver?

Hoje minhas palavras se foram.
Como a pessoa que tanto amávamos.
Força sempre.

sobre musicar-me. e continuar existindo.

noturno

o desafio do 5aTexto essa semana é escrever sobre a música que mais gostamos. não sei, mas me veio muito forte essa música do Aurio Corrá, logo quando o descobri. o estranho é que essa música me traz uma memória muito triste. é ouvi-la e ver, na minha frente, uma televisão com uma imagem esverdeada e as sirenes de cabul anunciando que a primeira bomba, o primeiro míssil inteligente, enfim, passou pela bateria anti-aérea afegã; a guerra havia começado, oficialmente.
que louco, né? como uma música consegue te trazer sensações e lembranças que você, na hora, nem imagina que registrou.

minha contribuição é essa.
.
pense aí na sua vida,
um dia que seja,
em que um som qualquer não tenha se feito presente.
trilhando seus dias de ponta a ponta,
de conta a conta,
te fazendo passar da conta de tanto lembrar,
do que você preferia esquecer,
e não vai.

lembrou?

pensei aí um dia que seja,
em que você não ouvisse lá do fundo da cabeça;
dos seus mais antigos pensamentos,
ou vindo das casas da rua estreita da sua casa,
das suas passadas largas,
ou da dor de Amor mais antiga,
uma trilha sonora perfeita que te acalme,
e te silencie de fora pra dentro;
e ao redor.
e ao seu redor…

pensou?

pense aí na sua vida,
um dia que seja,
em que um pôr do sol de uma sexta-feira qualquer,
não tenha tido o mesmo acorde,
do acorda que você ganhou,
quando seu o Amor chegou e disse:
– não te quero mais. Acabou.

pensou?

Não há vida sem música.
Nem riso, nem pranto,
nem dor.

Tudo isso, sobre música, sofrer e Amor me lembra Cazuza.
Coincidência: Agenor.

“Escrevo numa tarde cinzenta e fria
Trabalho pra espantar a solidão e meus pensamentos
Hoje assumi em público minha doença
Estou mais leve, mais livre
Mais ainda tenho muitos medos
Medo de voar, de amar
Medo de morrer, de ser feliz
Medo de fazer análise e perder inspiração
Ganho dinheiro cantando minhas desgraças
Comprar uma fazenda, fazer filhos
Talvez seja uma maneira de ficar pra sempre na terra
Porque discos arranham e quebram
Amor,
Cazuza”
.

“O ÚLTIMO A DORMIR APAGA A LUA”

O tema dessa semana no 5ATEXTO é: “a noite”.
E essa é a minha contribuição.
E é tudo de verdade.

Ali, na Avenida Rebouças, em frente ao HC. Naquele viaduto, na passarela. Onde tem o ponto de ônibus, chegando na Avenida Paulista, sabe?! Aquele lugar, pertinho do Túnel Noite Ilustrada. Passos antes, do lado esquerdo, pra quem sobe. Do direito, pra quem desce. Bem no instante onde nossa paciência começa a ser lenta feito o trânsito avenida abaixo.
Paro.
Outro dia consegui enxergar a frase, até que enfim. Cabeça no banco, sono no rosto, rosto no vidro. E o vidro, xará, no viaduto. Ali, na Avenida Rebouças, em frente ao HC. Naquele viaduto, na passarela. Onde tem o ponto de ônibus, chegando na Paulista, sabe?!
Ela está lá. Inspiradoramente provocante. Pra gente espantar o sono e o tédio. O medo de se perguntar demais, de pensar demais: o que mesmo que a gente faz quando o sol se põe? O que mesmo que a gente faz, quando o nosso sol se põe? Espera? Adormece pro tempo passar mais rápido? Ora, e espera uma providência divina pra ele vir mais rápido que o combinado, que o esperado?
Já tinha visto uma outra, bem forte também. “Em casa de menino de rua, o último a dormir apaga a lua”. Pelo que li essa frase estava grafitada em algum lugar da Rua Augusta. A que eu vou contar não. Essa é de outro lugar. Ali, na Avenida Rebouças, em frente ao HC. Naquele viaduto, na passarela. Onde tem o ponto de ônibus, chegando na Avenida Paulista, sabe?!
É lá que quem não tem casa, por escolha própria ou de alguém que pode mais, mora. É a sala de estar, a cozinha e o banheiro dessa pessoa. Banheiro, cara! Banheiro. Parou pra pensar nisso? Aqui na rua de casa, aqui onde eu tenho casa, sala de estar, cozinha e banheiro, como todo mundo deveria ter, o Seu Vagner foi quem optou por ser o responsável oficial de apagar a lua todas as noites. Fez essa escolha consciente, me contou outro dia, em baixo do sereno. Apontou pra publicidade de cerveja num cartaz que o ajudava a se cobrir e disse:
– Isso aí, meu filho, é o que me fez vir parar aqui. Parei de brigar com a minha família há 13 anos, quando troquei minha casa por essa esquina. Aqui, ninguém me dá ordens, ninguém acha que sabe mais de mim do que eu mesmo. (Mesmo que elas estejam realmente certas, pensei).
Ele deixou a família, pois não deixava a bebida. Deixou a casa, a mulher, os filhos. Na rua, deixou as próprias ruas, saindo da zona norte, caminhando por aí até encontrar aqui, na esquina, um lugar. Quantos quilometros será que ele andou?
Aqui, me contou, deixou de beber. De beber, cara! E me disse pra dizer aos meus  amigos pra ter cuidado com isso de beber, sabe?! Ele deixou a família, pois não deixava a bebida. Aí, na rua, deixou a bebida, mas a família, ele me contou, já o havia deixado a essa altura.
Silêncio na Heitor Penteado.
O Seu Vagner está se levantando com calma, dificuldade, puxando a perna e a dor nela com muito cuidado para o mais alto que puder. O Seu Vagner já sabe há mais de uma década o que deve fazer quando o sol se põe.
Levantar-se e apagar a lua.
Obrigado por isso, Seu Vagner.

De verdade.

Sobre silêncios, formas e fôrmas.

Há tantas formas de silêncio, que não há de existir um silêncio que seja exatamente igual ao meu; ao seu, ou o daquela senhora ali, ó, sozinha, sentada no banco preferencial do ôninus “Terminal Campo Limpo / Paraíso”;
Olhando pro chão, olhando pra mão, pra dentro dela mesma…

Ela, preferindo a sua casa cheia dos filhos como outro dia; dos netos, como outro dia; do cachorro cinza e da gata laranja, já velha, como outro dia, a solidão de um ônibus de domingo à tarde. Chuvoso e frio.

Ela, saindo do nada, e indo pro mesmo lugar.
Mas pegando um ônibus pra isso.
O preço do silêncio? Três reais.

Há tantas fôrmas pro silêncio, que há de existir uma em que se encaixe exatamente o que você está sentindo.
Pelo que quer que seja, há de existir um silêncio pra você. Com o seu tamanho; seu jeito de andar quando a chuva aperta.
Ou que durma no mesmo lado da cama do qual você não abre mão.
Mesmo quando é visita.

Há de existir.
Você vai ver.
E vai tê-lo, também.
Ninguém escapa do silêncio na vida.
Ninguém (e para quê escapar?)

Um silêncio pelas ideias que não viram ações;
pelas amizades que viram dores;
pelas paqueras que não viram namoros;
pelos namoros que não viram histórias de Amor;
pelos casamentos que viram tratados de boa convivência.
E só.

Ou, silêncio pelo Amor, que, simplesmente, não vira.

E nos revira em dez, em vinte pedaços.
Cada vinte com o seu silêncio.
Cada vinte com o seu próprio silêncio.

Irônico é termos silêncio com tantas coisas gritando na gente.
Com tantas coisas gritando a gente;
Com tantas coisas fazendo nascer o contraditório ao silêncio: uma enxurrada de palavras.

Irônico é silenciar, quando o que mais se quer é exatamente compor uma música qualquer de Amor do Cartola,
e botar pra tocar a noite inteira na beira da cama do coração do seu silêncio…

Ouça só:
A música diz que o silêncio é uma prece, meu Bem.
E que essa nunca será a minha “última Oração pra salvar seu coração”.

Nunca será.

(me lembrei que junto com os meninos do Núcleo de Comunicação Maré Alta, do Campo Limpo, fizemos uma vez uma mega intervenção de dia inteiro sobre o Dia do Silêncio, no Projeto Arrastão)

Sobre a Mulher. E ficar sem as palavras.

Nosso tema essa no 5ATEXTO é ela: a Mulher, essa linda.

Contam, a pior coisa que pode existir para alguém que vive das palavras, é ficar sem elas.
Sabe? Quando elas se vão, assim, do nada, insistindo acompanhar quem partiu?
Então, se for verdade, eu estou bem perdido…
E mal pago, que é o pior.
Pois as palavras parecem ter tirado umas férias da minha cabeça e do meu coração.
Saíram, silenciosas, numa dessas tardes cinzas de São Paulo,
e nunca mais voltaram.
Nem disseram bem o motivo da partida, sabe…
Tá bom! Disseram, vai.
E foram…

Então, o meu grande prêmio de hoje é comigo mesmo.
e o desafio é vencer a falta de palavras, das palavras certas e certeiras,
como outro dia eu achava ter,
e escrever. Escrever. Escrever.
Como diz o poeta: quando a inspiração vier, espero que ela me encontre trabalhando.
Aqui, escrevendo.

Há tantas mulheres em minha vida, que um 5ATEXTO não haveria de dar conta para eu poder contar. Da primeira delas, minha mãe, à última, a mais amada de todas, não haveria Lenine e poesia que dissessem o que elas merecem ouvir. Talvez na próxima vida eu nasça Lenine, e consiga fazer uma música tão boa “todas elas juntas num só ser”.

Talvez.

Desde que eu me lembro por gente, ou um pouco antes disso, a figura feminina esteve presente com uma intensidade sem fim em meus dias. Sempre foram elas, as mulheres, as responsáveis pelas minhas mais alegres e tristes palavras.

E momentos também.
Sempre foi um caso de Amor e…e….
Amor.
Sempre foi assim.
E qual é o problema disso?

E a dor, quando vem, é um preço.
E faz parte, diria outro poeta.

Desde que eu me lembro por gente, ou um pouco antes disso, eu estive rodeado por elas. Na escola, quando criança; na rua, quando adolescente; nas baladas, quando agora.
A Mulher é bem mais perto do Céu do que nós, os homens.
E todo mundo quer ir pro Céu em algum momento, né?

Deve ser por isso que 70% das pessoas que eu conheço são mulheres de fato.
E cerca de 20% do restante que eu conheço tem um potencial incrível para ser.
Mas rola uma preguiça de assumir.

Às mulheres apaixonantes e apaixonadas;
Às leoninas e as capricornianas;
Às mulheres de Xico de Sá e de Nelson Rodrigues;
E as outras de Gabriel García Marquez.
Às mulheres de Recife, Brasília, Minas Gerais.
E as do México ; da Eslovênia; do Chile…
Sem esquecermos da mulher do Padre.
Quem durante o dia atende por Alex.

A você, mulher, de fato e de espírito, meus eternos agradecimentos
e todo o meu Amor e respeito.
Sempre.
É você que faz a gente ser tudo aquilo que não gostaríamos de demonstrar na frente dos amigos numa madrugada qualquer da Rua Augusta…
mas que nos faz ser assim, assim que você se vai, por um motivo qualquer.

Sem você a gente não vive.
Nem escreve nada bom pro 5ATEXTO,
como agora.

Sobre se Informar. Inspirar. E criar movimento.

No último sábado, 2, participei de um evento muito importante pra mim. Pelas pessoas que estavam lá e, muito, pelas que não estavam.
Fiquei pensando, depois, em casa, que, no fundo, no fundo, todas as histórias que eu contei tem a ver com uma coisa: quanta custa as coisas que vamos aprendendo ao longo da nossa jornada? Qual é o preço das informações que vamos colhendo pelo caminho? Então, resolvi compartilhar aqui exatamente o que falei. E o que surgiu depois de lá. O texto é longo, então, tomo a liberdade de trazer o áudio, apenas.

Para ouvir, clique aqui.

O que é o amor, por Ronaldo Pereira, Santos SP.

O que é o amor?

O amor pra mim é o equilíbrio entre os sonhos e a realidade, Mesmo com todo o stress da rotina que a vida nos oferta temos amor pra sonhar, refletir, confabular. E se der tempo amar, amar?

O que é o amor? O amor é como o pé de vento, que é sentido mas não é visto,
Invisível.
Sensível e veloz como o tempo.
O amor que é como o tempo e o pé de vento.
É sentido mas não é visto.
Invisível.
Veloz, Sensível.

O que é o amor?

O amor é doce como o mel,
Suave como o cheiro de uma rosa,
Leve como as nuvens de um céu azul,

Quem ama decola,
Cria asas nos pés,
O amor move os corações,
remove as barreiras, fortalece a alma….

O que é o amor? Cumplicidade, parceria,
tristeza, Lágrimas, sorrisos e alegrias.
Sonhos coletivos, realizações e aprendizado,

O amor não reprime,
O amor não condena, nem julga,
O amor é um filme sem fim..

O que é o amor?
O amor ninguém explica,
e todos questionam,
Mas ninguém e nada responde,

O que é o amor?
Amor é ser você sempre,
doar sua melhor versão à sociedade,
Ser o melhor amigo do seu coração,
Entender e ser entendido,

Amar e ser amado,
que seja sempre infinito.

o amor é doce que ninguém come sozinho.

O que é o amor?